27 agosto, 2015

DISCUSSÕES SOBRE A ÉTICA EM PETER SINGER¹


"A Bíblia é para o teólogo o que a natureza é para o cientista: a fonte de fatos concretos. O teólogo reverente adota, para averiguar o que a Bíblia ensina, o mesmo método que o filósofo adota para averiguar o que a natureza ensina."
(OLSON, 2009, p. 7).


Considero muito importante que, antes de iniciar a discussão sobre o que Singer (2002) aponta sobre a ética, evidenciar que os apontamentos que farei neste trabalho vão além da apologética cristã, isto porque, a fé que tenho em Cristo é o fundamento da minha existência, do meu pensar.

Após a leitura do texto que tive acesso para servir como base às referidas discussões, fui instigada por conhecer quem é Peter Singer, afinal, não posso “julgar um livro após ter lido somente uma página do mesmo”, assim também não sinto-me confortável de falar sobre as ideias de alguém que não conheço mais um pouco, para além da partícula do capítulo lido. No site da universidade de Princeton constam algumas informações sobre si. O australiano Peter Albert David Singer trabalha com as questões de ética aplicada e prática, além de bioética (vida animal e vida humana) desde o final dos anos 90.

Por meio das leituras tidas sobre seus pensamentos por outras vias que não seus escritos, foi possível perceber o quanto as ideias dele se diferenciam da minha. Reitero que, não vou negar a minha crença, os meus princípios aos discursar no presente texto. Dessarte, ao que é meu dever fazer, assim sucede-se.

Singer, no primeiro capítulo de sua obra “Ética Prática” apresenta quatro compreensões do que a ética não é. Ele diz que ética não é uma série de proibições sobre o sexo. Para o autor, há questões mais interessantes para falar de ética do que tratar sobre a discussão da moral sexual. Se ele não faz essa discussão por não ter muito conhecimento sobre, ou ainda não discute por não haver argumentos suficientes, é preferível não haver posicionamento. Concordo nesses casos.

O segundo fato que a ética não pode ser considerada, de acordo com o autor, trata-se de a ética ser proveitosa somente na teoria e na prática não. Posiciona-se dizendo que seguir normas simples pode acabar em desastre. Mas como assim, Singer? Se elas se constituem para o bem, do amar ao próximo como eu mesma, não há mal nelas. Deixa em dúvida o fato de a ética ser utilitarista ou não, no decorrer do seu texto. Mais adiante, dá um exemplo de que, se vivêssemos na Alemanha nazista e a Gestapo chegasse perguntando sobre algumas famílias judias, seria certo dizer, segundo ele, que não havia judeus por perto. Bom, Corrie Tem Boom e sua família ajudou muitos judeus a se esconderem dos nazistas. Foram pegos pela Gestapo; Corrie, especificamente, foi solta, mas mesmo em meio a toda sua aflição, era confiante.

Por que insisto a versar sobre fé? Pois se relaciona ainda mais com a terceira ideia de que a ética não é, para Singer. Ele diz que a ética não é algo que pode ser entendido somente no âmbito da religião. Aponto que ele não pode falar de algo que não se tem conhecimento... O autor diz que Platão refutou a afirmação da questão de Deus aprovar ou não nossas ações. Mas quem veio primeiro? Quem é mais importante? Platão existiu, trouxe uma inegável contribuição filosófica e se foi. Deus subsiste. Infelizmente Singer não entende como Deus é bom, pois Ele é em si mesmo, não necessitando de normas, regras, pois é perfeito. Nós não. Saberíamos viver sem saber para onde ir? Saberíamos viver sem limites, libertinos? Alguns certamente pensam que sim, penso que precisam rever sua posição. Concordo com Singer quando diz que para ter um comportamento ético, não necessariamente é preciso crer no céu e no inferno. Mas para que serviria toda essa bondade se não tiver a graça? Entro num campo extremamente teológico quando abordo esse fato e é o que considero, sem reservas, o mais apropriado para comentar e discutir essa terceira ideia.

O autor apresenta a quarta ideia: ética não é relativa ou subjetiva. Singer apresenta-a de acordo com um consequencialismo, ou seja, dependendo da consequência de determinada ação, ela poderá ser considerada correta ou não. Conforme ele, foi a partir do século XIX a popularidade das crenças e as práticas morais de sociedades distantes. Mas é estupendo que, quando se faz um estudo histórico social por meio das Sagradas Escrituras Cristãs, se entende o motivo da “popularidade” dessas crenças e práticas morais acabar se tornando, de certa forma, “distante”.

Essas foram as quatro ideias apresentadas por Peter Singer no início do seu livro, mas logo à frente dessa seção do texto, o autor diz que “o raciocínio ético é possível” para a existência da ética prática (p. 16), no sentido de que a razão é ponto crucial à ética.  Para ele, para se ter um raciocínio ético, não é necessário existir fatos éticos. Compreendo por tal ideia que, não é preciso existir primeiro uma questão bioética, sobre o aborto, por exemplo, para ter um raciocínio ético sobre a mesma, independente do que se acredita.

Não posso fugir do que, mais que acredito, creio. Compreendi pela leitura de somente o texto Ética Prática, que o autor busca fiar-se no seu eu, na sua mente, sua capacidade de raciocinar (o que é dom de Deus). Sem dúvidas, para mim, o ser humano tem a possibilidade de ir por este ou aquele caminho, fazer isso ou aquilo, mas precisa entender dos limites, dos direitos, dos deveres. Não compreendo uma sociedade que liberal que sobreviva, pelo menos não quero estar por aqui participar desse momento.

Para serenar o que talvez se tornou conturbado, declaro minha total ciência de que vivemos em um sociedade, ou melhor, um mundo com diversas sociedades, com uma gama de conceitos, princípios, crenças, diversas e até inimagináveis à nossa realidade. Isto posto, qual é a importância de tudo que fora dito? Compreender que não é só o meu pensamento que existe, mas diversos outros, díspares ou consonantes e que devo respeitá-los, porém, quando esse pensamento gera uma ação que vai contra a vida humana, que vai contra o que acredito, aprendi a não participar de mixórdia, mas fazer o que sempre procuro realizar.
 
REFERÊNCIAS

MYER, Pearlman. Conhecendo as doutrinas da Bíblia. 3. ed. São Paulo: Editora Vida, 2009.


SINGER, Peter. Ética Prática. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

¹ O presente texto foi redigido mediante solicitação de atividade para a área de Ética e Bioética do curso de Licenciatura em Pedagogia.