17 maio, 2012

A chama dos ideais

    Do autor russo Leon Tolstoi aprendi a ter um profundo respeito pelo ideal inflexível, absoluto de Deus. Os ideais éticos que Tolstoi descobriu nos evangelhos o atraíram como  uma chama,  embora  seu fracasso em pô-los em prática tenha acabado por esgotá-lo.
  Tolstoi lutou para seguir o Sermão do Monte literalmente, e sua intensidade logo fez seus familiares se sentirem vítimas dessa busca da santidade. Por exemplo, depois de ler a ordem de Jesus para que o homem rico se desfizesse de tudo, Tolstoi decidiu libertar seus servos, doar seus direitos autorais e passou a trabalhar no campo. Sua mulher, Sonya, vendo a segurança financeira da família correndo o risco de evaporar-se, perdeu a paciência e protestou até ele fazer algumas concessões.
    Lendo os diários de Tolstoi, vejo em retrospectiva algumas de minhas próprias investidas rumo à perfeição. Os diários registram muitos embates entre Tolstoi e sua família, mas muito mais numerosas são as lutas desse homem contra si mesmo. Na tentativade atingir a perfeição, ele foi criando novas listas de regras. Renunciou à caça, ao fumo, ao alcool e à carne. Redigiu "Regras para desenvolver a vontade. Regras para desenvolver os sentimentos elevados e eliminar os vis". No entanto, ele jamais conseguia a disciplina necessária para observar suas regras. Mais de uma vez, Tolstoi fez voto público de castidade e pediu quartos separados. Mas nunca foi capaz de cumprir esse voto por muito tempo, e, para sua grande humilhação, as dezesseis vezes que Sonya engravidou anunciam ao mundo sua incapacidade.
    Às vezes Tolstoi conseguia realizar grandes atos de bondade.Por exemplo, depois de um longo silêncio, ele escreveu mais um romance, Ressurreição, aos 71 anos de idade, em defesa dos doukhobors - grupo anabatista então perseguido pelo czar - e doou todos os proventos dessa obra a fim de financiar a emigração dos perseguidos para o Canadá. Além disso, sua filosofia da não violência, extraída diretamente do sermão do monte, exerceu um impacto que perdurou muito tempo após sua morte, tendo descendentes ideológicos como Gandhi e Martin Luther King.
    Segundo todos os critérios de avaliação, a busca de Tolstoi pela santidade terminou em decepção. Resumindo, ele fracassou na prática daquilo que pregava. Sua mulher colocou bem (num relato obviamente distorcido): 

Há muito pouco calor humano genuíno em sua pessoa; sua bondade não provém do coração, mas apenas de seus princípios. Seus biógrafos contarão como ele ajudava os trabalhadores a carregar baldes de água, mas ninguém jamais saberá que ele nunca deu a sua mulher um momento de descanso e nunca - em todos esses 32 anos - deu a seu filho um copo d'água ou passou cinco minutos junto à cama dele para me dar uma oportunidade de descansar um pouco de minhas tarefas.

    As entusiásticas passadas de Tolstoi rumo à perfeição nunca resultaram em nada semelhante à paz e serenidade. Até a hora da morte, seus diários e cartas sempre voltavam ao pesaroso tema do fracasso pessoal, expondo o grande vazio entre os elevados ideias do evangelho e a triste realidade de sua vida.
Leon Tolstoi foi um homem profundamente infeliz. Disparou críticas contra a Igreja Ortodoxa Russa de sua época e mereceu dela a excomunhão. Seus esquemas de aperfeiçoamento pessoal naufragaram todos. Às vezes ele precisava esconder as cordas existentes em sua propriedade e guardar suas armas a fim de resistir à tentação do suicídio. No fim, Tolstoi fugiu de sua fama, sua família, sua propriedade, sua identidade; morreu como um andarilho numa estação ferroviária rural.
    Tendo em vista esses fracassos, o que se pode aprender da trágica biografia de Leon Tolstoi? Li muitos de seus escritos religiosos, e para mim eles são sempre uma fonte de inspiração, devido à reverência dele pelo ideal absoluto de Deus. Tolstoi nos faz lembrar que, ao contrário daqueles que dizem que o evangelho resolve nossos problemas, em muitas áreas - em questões de justiça, questões de dinheiro, questões de raça, questões pessoais de orgulho e ambição - , o evangelho de fato nos traz novos fardos que se somam aos que já temos. Tolstoi levou absolutamente a sério a pergunta de Jesus: "Que adiantará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?".
    Não é fácil ignorar um homem disposto a libertar seus servos e a desfazer-se de suas posses só para obedecer a uma ordem de Cristo. Quem dera ele pudesse viver à altura daqueles seus ideais - quem dera eu pudesse viver à altura deles.

YANCEY, Philip. A chama dos ideais, Uma vida infeliz - Sinais da Graça In: Alma Sobrevivente. São Paulo: Mundo Cristão, 2011. p.p. 136 - .